Há títulos que quase se escrevem sozinhos. A noFi apresenta-se como uma DJ genre-fluid, é de Toronto e toca como se as fronteiras entre pop, house, bass e techno fossem apenas sugestões. Estes dois sets para a Suck My Deck mostram duas faces diferentes da mesma identidade: quentes, ruidosas e pouco interessadas em ficar arrumadas numa só prateleira.

Toronto, Pride e Suck My Deck #
Na sua página oficial, a noFi resume-se em duas linhas: “Genre-fluid DJ who loves to dance” e “Based in Toronto”. A descrição é curta, mas encaixa bem no que se ouve — e no que se vê — nestas gravações.
A Suck My Deck nasceu em Toronto a partir de seis amigos que aprenderam a tocar e decidiram passar aquilo de que gostam, mesmo quando aquilo de que gostam muda bastante. A lista de DJs do coletivo inclui noFi e JOOOF. A Pride Toronto identifica os dois como a dupla por trás do projeto e situa a estreia numa pequena festa Pride em Kensington Market, em 2024.
O primeiro vídeo vem precisamente desse contexto. Hot Girl Hyperpop DJ Set | Pride Party in Toronto | noFi foi publicado pela Suck My Deck a 14 de julho de 2024 e atravessa 48 minutos de vocais pop, house e bass com bastante impulso de pista. SOPHIE, Charli XCX, Tove Lo, Rico Nasty e Caroline Polachek aparecem no alinhamento, mas também Mau P, Chris Lorenzo, Hamdi e Eli Brown. Hot Girl Hyperpop é uma ótima porta de entrada; não é uma descrição completa.
É justamente aí que genre-fluid deixa de parecer apenas uma boa frase de bio. A noFi mantém a energia e o gosto por referências pop reconhecíveis, mas muda o peso, a cor e a direção do set sem pedir autorização à polícia dos géneros — que, felizmente, não parece ter sido convidada.
A outra face: mais escura, igualmente física #
O segundo vídeo, Dark Girl Hyperpop DJ Set | SLAY Themed Party | noFi (Scooby), foi publicado a 21 de dezembro de 2024. A gravação vem da festa de Halloween SLAY, no Bar Cathedral, em Toronto, e condensa 35 minutos num registo mais sombrio.
Elohim, REZZ, One True God, Grimes e BANKS puxam a seleção para uma zona mais escura e pesada; COBRAH, Kim Petras e Britney Spears mantêm o elo com o pop descarado do primeiro set. Quando Skrillex, Sara Landry e Zingara entram na equação, a continuidade torna-se clara: muda o ambiente, não desaparece a vontade de fazer a pista mexer.
Entre o Pride luminoso e o Halloween em modo Scooby, a noFi não precisa de escolher uma só versão de si própria. Genre-fluid não é uma fuga à definição; nestes dois vídeos, é a definição mais honesta.